26 de agosto de 2011

23º Registro - Sobrevivente...

Estou vivo cara... estou vivo, estou no teto de um prédio, sinto muito pela sua familia, tenho um blog também, o link é http://wofdeadbysky.blogspot.com/...


Estas foram as palavras de resposta...li o blog dele e a sua história é muito parecida com a minha...aguente firme cara...


O que percebi também,é que fui chamado em todo o final de tarde para a sala do responsável por essa área segura.
O nome dele é Marcelo Campos...um tenente que conseguiu cuidar disso aqui por todo esse tempo.
Todo dia eu estou relatando o que passei,e mostrando meus diários.


Me disseram que eu e a Ana Paula somos os únicos sobreviventes a chegarmos aqui depois que toda a poeira abaixou.Talvez por isso,que estamos recebendo um tratamento diferente...com algumas mordomias.
Espero que isso dure...

22º Registro - Área Segura...

Eu levantei,muito ofegante...
Sacudi o braço para jogar o excesso daquele sangue espesso no chão,e olhei o corpo caído.
Carlos já havia subido no vagão,junto com Ana Paula,e depois de uma olhada falou:
-Esse aqui funciona por bateria...liguem aqui -apontou para o painel do vagão-e assim que eu disser,empurrem a alavanca!
Ele saiu no mesmo instante,e correu em direção à multidão que nos perseguia,e se perdeu de vista na curva do túnel.
Enquanto isso,liguei o vagão como ele disse,e suas luzes iluminaram o túnel.
Depois de uns 20 segundos,tiros começaram a ser disparados,e depois de um tempo,ele voltou correndo e gritando:
-Acabou a munição!Já empurra a alavanca!!!-Carlos gritou com um desespero que nunca vi antes nele.
Empurrei com toda a força,e nada aconteceu.
Quando Carlos ia subir,percebeu que não ligava,e então agachou-se.
Eu fui ver o que ele estava fazendo,e quando abri a porta traseira do vagão,ele estava mexendo nos fios de uma pequena caixa embaixo do vagão.
-Carlos!Eles estão vindo!!! -Minha voz vacilou...e quase não saiu nenhum som.
-Empurra a alavanca agora! - Carlos gritou,e eu dei o sinal para Ana Paula dar a partida no vagão.
Na hora,um leve zumbido tomou conta do vagão,e ele começou a se mover lentamente.
Naquele momento,os infectados já estavam a 15 metros de nós,e eu pedi ao Carlos para ele entrar no vagão.
-Fecha a porta!!!- Ele já estava levantando e correndo em nossa direção.-A próxima estação é um hot spot!Não parem por nada e depois de passarem por lá,tentem parar na estação Trianon-Masp!!!
Assim que ele terminou a frase,os infectados o alcançaram,mas ele ainda conseguiu escapar e correu um pouco mais.Na hora,ele puxou uma granada que estava num bolso.
Ele sorriu e piscou pra mim,então parou,puxando o pino da granada.
Bem na hora,o vagão já estava em alta velocidade,e o perdemos de vista na curva do túnel.
5 segundos depois,o túnel se encheu de uma luz amarelada e o ruído da explosão foi ensurdecedor...
Carlos tinha se sacrificado pra nos manter na luta...
Em dois minutos,passamos pelo hot spot da estação Brigadeiro...foi um show de horrores...
Uma multidão estava na plataforma,e mais alguns na linha do metrô.Alguns de pé,outros jogados no chão.
Me arrependo de ter ficado com os olhos abertos na hora.
-Cuidado,Ana Paula,se abaixa!-Eu disse,e fiquei de pé.
Quando o vagão se aproximava,muitos da plataforma se jogaram na linha,e quando atingimos aquela massa de gente,tudo virou um espetáculo grotesco.
Toda a parte de fora foi pintada de tons de vermelho,marrom e preto.O vagão diminuiu seu avanço e pude sentir seu metal rangendo.Vi alguns membros girando no ar,e quando tudo aquilo acabou,ganhamos velocidade novamente.
O vagão se encheu de um fedor insuportável,e quando vimos uma luzinha piscando embaixo do nome Trianon-Masp no painel,comecei a diminuir a velocidade.
Parei o vagão uns 10 metros antes da plataforma da estação,e tivemos que correr para lá,sem saber o que havia naquele local...assim que passamos pelo vagão,vi que pedaços de gente estavam grudados na parte da frente,e aquilo cheirava a excrementos.
Depois,andamos até a plataforma,quando um grupo de uns 10 homens,todos armados,apontavam para nós.
-Se não forem infectados,falem agora!!! - Disse um dos homens
-Parem!Não somos infectados...por favor nos ajudem! - Gesticulei desesperadamente,e a Ana Paula fazia o mesmo.



Ficamos de quarentena por 7 dias,e depois fomos liberados para a tão sonhada área segura...
Não é o paraíso...mas em relação ao inferno que é la fora,pode ser considerada um refúgio desesperado...
Acontece que falta de tudo aqui...comida,água,remédios...tudo é racionado...
E essa área segura é um complexo que pega 2 quarteirões da Avenida Paulista...
Vários galpões estão por aqui,e cada um oferece um serviço básico para todos...droga...o fato de eu ter me separado da minha família no momento mais importante é horrível.
A angústia é enorme.

Hoje estava vendo meu e-mail...recebi uma mensagem,mas não sei se isso é verdade...
Era de um cara que se chamava Sky,e dizia assim:
Oi, cara eu li seu blog e espero que você ainda esteja ai, se estiver me responda o mais rapido possivel, temos muito o que conversar...
Tomara que isso seja verdade...
Respondi assim:
Fiquei assustado quando li seu e-mail,e espero que ainda esteja vivo...por favor,mande outro e-mail para garantir que é de verdade...
O que eu menos gostaria,é que estivesse mandando um e-mail pra um cara que já tivesse morrido.

Só estou esperando a resposta dele...

21º Registro - Área Segura...

O barulho dos passos foi aumentando.
Com certeza,esses infectados conseguem sentir de algum modo,a presença de pessoas normais...pelo cheiro talvez.
Eram só mais duas estações,e estaríamos a salvo,longe desse inferno.
Falando,parece fácil...só falando.
Fiz o maior esforço pra levantar,e parecia que eu tinha uma tonelada presa a mim.
Assim que eu levantei,todo o meu corpo doeu.
Carlos deu o sinal,e começamos a correr...
Naquela parte da estação,as luzes estavam acesas,e conseguimos pegar uma boa distância do grupo de infectados...quando olhei para trás,vi que tinham uns 10 atrás de nós.
Depois de uns 3 ou 4 minutos correndo,um vagão estava bem no meio do caminho,mas não era um vagão normal...era um vagão pequeno,e era um só.
Provavelmente era de manutenção.
A porta traseira estava aberta,e eu já pulei pra dentro...mas sem olhar o que tinha dentro.
Um homem magro,loiro,e com uma barba que cobria todo seu rosto estava deitado,embaixo do banco,ao meu lado,seus dentes estavam à mostra por falta de toda a lateral de seu rosto.
Seus olhos estavam mortos,sem reação,até que eu tossi por causa do impacto com o chão.
De repente,ele tentou se levantar,sem sucesso,e então rolou para cima de mim.Na hora,fique sem muita reação,e fiz o que dificilmente faria,se tivesse pensado bem...assim que ele subiu em mim,empurrei seu queixo com toda a minha força,até ouvir um estalo forte,e sua cabeça ficou travada por um instante,até que ela escapou das minhas mãos,ficando pendurada somente pela pele do pescoço,e o homem ficou abrindo e fechando a boca,enquanto seu sangue escuro e gosmento começou a sair de sua boca,escorrendo por meu braço.
Bem na hora,a cabeça do homem explodiu,e quando olhei para o lado,lá estava Carlos,com seu fuzil apontado...
Vou escrever depois...estão me chamando...tudo aqui é diferente do que pensávamos...mas mesmo assim,é melhor do que lá fora...

25 de agosto de 2011

20º Registro - Área Segura...

Não acredito que consegui chegar aqui...e devo isso ao Carlos.
Ele morreu para eu e a Ana Paula chegarmos aqui...
Depois de três dias na estação,decidimos que não era muito sensato ficarmos lá,já que as saídas ficaram completamente cercadas.
Então,o Carlos encontrou uma espécie de sala de controle da estação,e ligou as luzes da plataforma.Infelizmente,as luzes dos túneis não eram controladas por lá,de modo que tivemos que seguir viagem no escuro.
Carlos só tinha uma lanterninha pequena,que iluminava no máximo uns 5 metros à nossa frente.
Foi muito deprimente passar estação por estação,vendo tudo aquilo vazio...acho que quando tudo saiu de controle,a maioria das estações estavam fechadas...provavelmente foi na hora de fechar as estações... mas na correria,não houve tempo de fecharem todas.
Entre as estações Pedro II e Sé,vimos o primeiro infectado,que surgiu das sombras e correu em nossa direção.Carlos o abateu sem dificuldades...os dois tiros disparados por ele com certeza ecoou por algumas dezenas de quilômetros...e o fato de estarmos num túnel deve ter ampliado aquilo.
Na estação da Sé,foi que toda a merda aconteceu...tudo seria fácil.Sair da linha vermelha,e passar para a azul,em direção à Jabaquara,até mudarmos de linha novamente,para a linha verde,onde iríamos andar duas estações até a Trianon-Masp .
Seria fácil,se o chão de toda a estação não estivesse cheia de corpos...centenas deles.
Enquanto caminhávamos pela estação,observei aquele tapete de corpos,o ambiente impregnado,com cheiro de morte...quase na plataforma da linha azul,vi um corpo sentado de um policial militar,com a cabeça inclinada e uma arma na mão...naquele estado de decomposição,era impossível distinguir se ele havia cometido suicídio,mas era fácil deduzir...
Talvez uma multidão de infectados tenha invadido a estação,e quando viu que era impossível conter todo mundo,o desespero tomou conta daquele policial...
-Droga...então era verdade...-Carlos rompeu o silêncio,e seu sussurro pareceu um grito -Ouvi no rádio um comunicado sobre esta estação...chamaram de "hot spot"...
Eu fiquei em silêncio,e a Ana começou a ficar nervosa,quase assustada...acho que ela já tinha ouvdo aquela expressão...
-É um ponto quente...quando essa doença explodiu,esse não era um lugar muito sensato de se visitar...-Até ele mostrava preocupação... -Provavelmente não estamos sozinhos,então,muitas dessas pessoas não estão mortas...
Assim que ele disse isso,pulamos na linha do metrô...e a Ana Paula começou a chorar.
Uma espécie de grunhido chegou aos nossos ouvidos como um tapa na cara,e sem nenhuma necessidade de aviso começamos a correr...
Tenho certeza de que passamos por umas duas estações sem diminuir o ritmo,e o barulho de pedras sendo pisadas era constante.
A lanterna acesa do Carlos balançava freneticamente enquanto ele corria,e o feixe de luz girava pelo túnel iluminando casualmente a nossa frente...
Talvez,os infectados estivessem a uns 30 metros atrás de nós,e de vez em quando,o Carlos parava e mandava uma rajada de tiros na multidão.
Corri tanto,que senti meu peito queimar,meu sangue ardia como ácido a cada batida do meu coração.
A Ana Paula ameaçou parar muitas vezes e a cada vez que acontecia isso,Carlos a pegava pelo braço e quase a arrastava.Numa das vezes ele tentou gritar,e quase saiu um sussurro.
-Pe..pelo amor de Deus...não para!
Quando ninguém mais aguentava correr,vimos as luzes de uma estação ao longe...
Aquilo foi um alívio...assim que vimos a placa azul onde estava escrito "PARAÍSO",escalamos a plataforma com tanta rapidez que poderíamos ganhar uma competição daquilo...
Procurando desesperadamente por placas de sinalização,fomos para a plataforma da linha verde que dizia "Embarque-Vila Madalena".
Assim que pulamos na linha do metrô,desabamos no chão.O cansaço e a altura de que pulamos fez com que ficássemos uns 30 segundos no chão.A respiração de cada um de nós parecia a de alguém que conseguia chegar à superfície depois de ficar debaixo d'água por mais de 5 minutos.
E depois,ouvimos barulhos de passos no chão...alguns daqueles infectados conseguiram subir a plataforma e estavam correndo pela estação...
Droga...estou exausto para escrever...tentarei terminar amanhã.
E mal posso esperar pra dormir na minha nova cama...

14 de agosto de 2011

Diário - 19º Registro...

Nossa...tive uma sensação que não tinha em semanas...
Acabou que o Carlos concordou em saírmos de lá,depois da morte da 3ª pessoa.
Sobraram 4,contando comigo.Nós tivemos que fugir para a estação Bresser.
Nossa sorte na saída foi que os infectados se distraíram com os corpos lá dentro...
Quando chegamos perto da estação Bresser,tivemos que parar,pois a avenida estava cheia de infectados.Um mar formado por seres atormentados,que um dia tiveram família,trabalho,deram risada com amigos.Hoje são maltrapilhos cheios de sangue.Alguns com pedaço de carne na boca.E talvez minha família esteja lá.
Tivemos que parar na porta da estação,e subimos na Hilux,e depois na cobertura da entrada.
Era uma rampa imensa.Uns 20 metros de concreto liso e inclinado.No meio do caminho,olhei pra baixo,e bem na hora,uma senhora de uns 40 anos começou a escorregar,indo direto para aquele inferno.Não gostaria de ter visto aquilo.Eu vi as vísceras da mulher,vi seu sangue escorrer entre os dentes daquelas pessoas.
E de repente,seu gritos pararam.Nem terá condições de virar uma infectada,com certeza não restou nada.
Depois,agente subiu,e chegamos na plataforma.
Agora estamos aqui.Eu,o Carlos,e a Ana Paula,uma moça de uns 25 anos ,que esteve desesperada por todo esse tempo.Eu consegui quebrar um quiosque da Nestlé,e peguei algumas barras de chocolate...isso é muito bom.Nem lembrava o quanto.
Mas mesmo aqui,existe um grande perigo.
Ninguém sabe se todas as estações estão fechadas.Tudo pode acontecer...inclusive,infectados conseguirem chegar aqui pela linha de metrô...
Isso é o que eu menos quero... 

7 de agosto de 2011

Diário - 18º Registro...

Está bem...não aguento mais.
Não posso ficar fugindo do que parece óbvio,sei que minha família já deve estar morta.
Não sei se estou delirando,mas já escuto barulho de tiros e às vezes,de carros.
Deve ser porque eu já não como nada faz uma semana.
Eu já falei ontem com o Carlos,que não poderíamos ficar mais aqui.Duas pessoas aqui dentro já morreram,e não é nada agradável sentir o cheiro de um ser humano em decomposição,ainda mais em um lugar fechado.
Acho difícil ele me escutar,mas parece que ele também tem planos para saírmos daqui.
Depois do que aconteceu,tivemos que nos separar,e ficou impossível de seguirmos adiante depois de tudo.
Estamos trancados num barzinho,que fica na região do Tatuapé,mas não sei exatamente o lugar.
Depois que bloqueamos a entrada com o balcão e a mesa de sinuca,ficamos um bom tempo aqui,esperando algo acontecer.Mas simplesmente estávamos abandonados,e ainda estamos.
As batidas na porta já pararam,mas ainda existem muitos lá fora.
Mesmo assim,o Carlos tem um fuzil.Não quero morrer num quarto escuro,no meio de mais um monte de cadáveres.Agente tem que sair daqui.
Minha cabeça tem tanta ideia que está quase explodindo...
Não,não posso mais ficar aqui.
Amanhã essa cidade vai ganhar mais um infectado como habitante.
Ou vai perder alguns...